Fracasso em Copenhague

Era de se esperar, mas milhões de pessoas não perderam as esperanças até os últimos minutos do fim da Conferência do Clima, no sábado, dia 19 de dezembro, sediada em Copenhague. A grande oportunidade de estabelecer um acordo global antes que seja tarde demais para reverter o quadro das mudanças climáticas no planeta pode ter ido pelos ares. Representantes de 193 países debateram o assunto durante 12 dias, concordaram que é preciso fazer algo, porém nenhum acordo foi estabelecido.

O objetivo do COP-15 era desenvolver novas metas, uma extensão para o Protocolo de Kyoto que expira em 2012. A proposta de ONGs e do IPCC era de redução de gases do efeito estufa emitidos por países industrializados entre 25% e 40% até 2020, e de 80% a 95% até 2050. Alguns representantes de Ilhas, como das Maldivas e de Tuvalu alertaram o limite de um aumento máximo de 1,5ºC, caso contrário podem desaparecer do mapa.

Mas a maioria dos países industrializados não queria se comprometer se Estados Unidos, China, e países emergentes não anunciassem uma boa proposta de redução. A melhor explicação para isso, é que boa parte deles acham que estabelecendo metas de redução, serão obrigados diminuir o ritmo de desenvolvimento do país. Poucos são os que estão cientes que ao estabelecer metas reais, são obrigados a investir em novas tecnologias como as energias renováveis, o que no futuro só vai gerar benefícios para o país.

Em entrevista ao Globo News, o ministro do meio ambiente Carlos Minc, criticou a organização dinamarquesa, e se mostrou frustrado pelo desfecho da Conferência, afirmando este ser um dos dias mais tristes de sua vida. Minc também criticou a atuação de Obama que apareceu na sexta-feira e deu um discurso frustrante. Segundo ele, o presidente dos Estados Unidos poderia ter sido um dos principais motivos pelo desastre de Copenhague, mesmo reconhecendo que ele “talvez não pudesse estabelecer um acordo pois estava com o pé amarrado ao Senado americano que é muito conservador”.

“O que ele falou não está à altura da expectativa da população do planeta”, lamentou o Ministro. Obama em seu discurso afirmou que “a questão é se vamos seguir em frente juntos ou nos dividirmos”, e que “esse não é o acordo perfeito e nenhum país vai conseguir tudo o que quer.” O Presidente dos Estados Unidos também afirmou que o acordo só teria credibilidade se fosse incluído maneiras de medir as metas de controle das emissões e que deveria haver transparência.

Já o Presidente Lula, deu um belo discurso na sexta-feira e mostrou sua preocupação em chegar a um consenso e estabelecer um acordo real de redução das emissões. Lula afirmou que compreende que os países ricos “não serão os salvadores dos países em desenvolvimento” e que o aquecimento global pode atrapalhar o desenvolvimento do Brasil. “Passamos um século sem crescer enquanto outros cresciam muito. Agora que nós começamos a crescer, não é justo que voltemos a fazer sacrifício.”

Lula

Segundo Lula, o problema para que os países cheguem ao acordo não é apenas o dinheiro, mas a disposição política. O presidente afirmou que os países estão “barganhando” na conferência da ONU. “Quando pensarmos no dinheiro, não pensemos que estamos fazendo um favor, que estamos dando uma esmola. Porque o dinheiro que vai ser colocado na mesa é o pagamento das emissões de gases de efeito estufa de dois séculos de quem teve o privilégio de se industrializar primeiro”, disse.

Dirigindo-se ao presidente da COP 15, Lars Lokke Rasmussen, e ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, Lula afirmou: “adoraria sair com o documento mais perfeito do mundo. Mas se não conseguimos fazer até agora esse documento, não sei se algum sábio ou anjo descerá nesse plenário e conseguirá colocar na nossa cabeça a inteligência que nos faltou até agora”.

Lula chegou a comentar que o Brasil estaria disposto a contribuir para o Fundo Internacional de financiamento de medidas de adaptação e redução de emissão nos países pobres, se fosse necessário. Isso surpreendeu os ouvintes dentro do Bella Center, que o aplaudiram 4 vezes durante o discurso que durou 10 minutos. Veja a baixo:

Por fim, o maior encontro diplomático dos últimos tempos acabou em fracasso na capital dinamarquesa. Nenhum acordo foi feito. O resultado de semanas de trabalho resultou em um documento de 2 páginas e meia que nem sequer cita metas de redução. Para baixar o “Acordo de Copenhague”, clique aqui.

Os EUA anunciaram que entrariam com US$ 3,6 bilhões; o Japão, com US$ 11 bilhões; a União Européia, com US$ 10,6 bilhões. Os US$ 4,8 bilhões que faltam precisam ser financiados por alguém. Entre 2013 e 2020, o aporte seria elevado para US$ 100 bilhões por ano.

“A cidade de Copenhague é cenário de um crime esta noite, com os culpados correndo para o aeroporto. Não há metas para cortes de carbono e não há acordo sobre um tratado com valor legal. Parece que há poucos políticos neste mundo capazes de enxergar além do horizonte de seus próprios interesses, muito menos de se importar com as milhões de pessoas que estão intimidadas pela ameaça da mudança climática.”
John Sauven, Greenpeace britânico

Se nosso futuro dependeu desses 12 dias em Copenhague? Pode se dizer que sim. Um acordo entre os representantes dos 193 países que os fizessem voltar para casa com um único pensamento de preservar não só o planeta, mas a humanidade, poderia ser a nossa salvação. Em vez disso, um documento sem valor legal algum, sem metas, sem mecanismos de controle, nada.

E além desse desastre, foi ouvir o discurso da ministra Dilma Rousseff que cometeu gafes terríveis em Copenhague: ela disse que “o meio ambiente é, sem dúvida nenhuma, uma ameaça ao desenvolvimento sustentável e isso significa que é uma ameaça para o futuro do nosso planeta e dos nossos países”. A máscara verde da candidata caiu, e espero que os brasileiros tenham consciência na hora de escolher um novo representante no ano que vem. Carlos Minc afirmou que as metas propostas na Conferencia não vão ser deixadas pra trás devido à inexistência de um acordo. Muito bom ouvir isso do nosso ministro de meio ambiente, mas ainda assim, será necessário o apoio dos próximos presidentes do Brasil.

Eu, como cidadã, quero agradecer à todos os ativistas que foram à Copenhague, pelo árduo trabalho de protestar e arriscar suas vidas em grandes manifestações, tudo por um acordo descente para o planeta. Também quero elogiar o empenho do presidente Lula, que sinceramente me surpreendeu, e agradecer à sua determinação em Copenhague, que certamente motivou outros países que estão na mesma situação que o Brasil. E também ao Ministro Carlos Minc, que com certeza marcou sua presença e influenciou positivamente toda a equipe brasileira que compareceu na Conferência do Clima.

Confesso que fiquei extremamente chateada com esse resultado, mas como a esperança é a última que morre, nós ficamos na expectativa que em dezembro de 2010, no México, apareça o tal “anjo ou sábio” mencionado por Lula para colocar a inteligência que faltou na cabecinha de todos os líderes mundiais.

Enquanto esse dia não chega, evoluímos…

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  • 2 comentários para “Fracasso em Copenhague”

    1. vinicius disse:

      Foi perda de tempo e dinheiro isso, uma vergonha.

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    2. Carol disse:

      É desanimador como os governantes e líderes da maioria dos países estão menos preocupados com a qualidade de vida no planeta, do que com seu próprio dinheiro e acordos comerciais.. quem sabe daqui uns 300 anos, não é?

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